O sabor da melancia | Existe amor em SP

Depois desse dia, o sabor da melancia mudou para ela. Aquela fruta simpática, vermelhinha e cheia de sementes pretas, passou a ter gosto de amor.

Era um sábado, noite alegre de verão. As amigas saíram para comemorar a vida em um pub da região da Paulista. Um homem, que andava trôpego, pediu ajuda pelo olhar. Ela parou e falou com ele. Desesperado e confuso, não conseguia se explicar. Mas seu pedido por socorro pareceu sincero.

Pequeno agricultor de Pardinho, vinha a São Paulo duas vezes ao ano. Não gostava. Cidade grande, muita gente. Preferia o sossego de sua terra arada. Mas precisava comprar sementes no Mercado Municipal. Plantava melancia baby e ganhava bom dinheiro na entresafra. Vivia disso. Ele, a esposa e o filho de seis anos.

Cinco dias antes, saía do Mercado Municipal, no centro dessa metrópole, quando levaram tudo que tinha. Um celular velho, documentos, o dinheiro do lanche, o dinheiro da passagem de volta à sua cidade e R$ 1.500,00 em sementes de melancia.

Não tinha como avisar a família pois seu celular era o único telefone que tinham na casa.

Bateu à porta da delegacia para fazer um boletim de ocorrência e pedir que o mandassem de volta para sua cidade, pois acreditava na existência de uma lei que deveria pagar sua passagem de ônibus em caso de assaltos. Mas sua aparência simples, a fala não muito clara pela falta de alguns dentes e o nervosismo não o julgaram digno de atenção.

Mandaram-no procurar o Poupatempo e refazer seu documento para que, pelo menos, pudesse ser alguém. Mas não conseguiu porque não tinha dinheiro para pagamento da emissão de segunda via. E não tinha a certidão de nascimento que comprovasse seus dados.

Mandaram-no ir de novo à delegacia mas outra vez não foi ouvido.

E assim vagou por São Paulo. Durante cinco dias. Do Centro da cidade foi para a Lapa. Da Lapa foi para a Barra Funda, onde achava ser mais seguro para dormir. E andou, andou. Tentou ajuda e tentou se explicar, mas olhavam para ele com estranhamento pois estava sujo, cheirando ruim e de barba por fazer. Ele se sentia muito mal por estar assim. E estando assim, as pessoas achavam que ele era mendigo ou estava embriagado. Ele sequer gostava de álcool. Só estava fraco.

Era apenas um homem. Um homem que conheceu sua esposa, quinze anos mais nova, quando cursavam Agronomia na UNESP. Uma gaúcha de olhos azuis e pele muito branca, disse ele.

Era um homem que não queria ficar preso nessa São Paulo por onde tantos vagam sem destino. Nessa noite, alguém olhou para ele e viu essa verdade.

Juntos, foram para a Avenida Paulista. O plano era dar-lhe dinheiro para a passagem de volta à sua cidade, comida e esperança.

Ele pediu para usar um banheiro, para que pudesse lavar o rosto, já que não tomava banho há alguns dias. E pediu com medo. Tinha medo de que, ao sair do banheiro, não encontrasse mais a menina. E medo ele sentiu, pois ao sair do banheiro ela não estava lá. Mas a menina viu, de longe, seu olhar de desolação e foi encontrá-lo. Estava logo ali, comprando-lhe um lanche.

Andaram, lado a lado, pela Paulista. As pessoas olhavam, curiosas, a dupla. A menina sacou dinheiro no banco e lhe entregou. Ele ainda disse que era mais do que custava a passagem. Mas aceitou. Ele apertou-lhe a mão, agradeceu e entrou no metrô.

Então, se foi.

Carta

Antes de ir, deixou um bilhete e o convite para ir encontrá-lo em seu sítio para que pudesse devolver o dinheiro emprestado

Nessa noite, ele conseguiu voltar pra casa. Pelo menos era o que a menina esperava. Não que não acreditasse nele, mas receava que pessoas que não acreditassem o impedissem de chegar em casa. E não parava de pensar… e se ele se tornasse mais uma pessoa morando nas ruas da cidade? Mais uma pessoa sem nome, sem rosto…

Nessa noite, a menina chorou.

explorasp-sabor-da-melancia

*Histórias como essas devem estar sempre em um local acessível da nossa memória, para que possamos acessá-la e jamais esquecer que, o que mais temos em comum com as outras pessoas, é que somos pessoas. Devemos olhar para os outros como eles devem ser vistos: com dignidade, com respeito. Porque somos iguais.

Escrevo essa história para que ela fique viva, também em mim. Porque eu vivi isso e não quero me esquecer. Porque não posso me deixar tornar uma pessoa que não acredita nos outros, que não se comove com olhares tristes que cruzamos nas ruas de São Paulo, todos os dias. Porque acredito, sim, que existe amor em SP.

P.S.: Comi melancia esta semana e estava deliciosa!

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